Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos e a força econômica do extremo norte sanjoanense
Quando se fala na atividade portuária do antigo município de São João da Barra, é comum que a memória se volte principalmente para os portos de Atafona e Gargaú. Entretanto, o desenvolvimento econômico do antigo território sanjoanense também alcançou profundamente sua região norte, onde o rio Itabapoana desempenhava importante papel como via de transporte e escoamento da produção.
Na região de Limeira, então distrito de São Luiz Gonzaga, estabeleceu-se um dos personagens que ajudam a revelar a dimensão econômica daquele território: Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos, fazendeiro, comerciante, proprietário rural, armador e político, cuja trajetória esteve diretamente ligada ao movimento comercial do Porto do Itabapoana.
De comerciante em São João da Barra a homem de negócios em Limeira
Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos nasceu em São João da Barra, em 5 de março de 1824. Era filho de D. Custódia Maria de Vasconcelos e do português José Francisco Lobato.
Ainda jovem, dedicou-se ao comércio. Possuía uma loja de tecidos na praça principal de São João da Barra e, como outros comerciantes daquele período, esteve envolvido também no comércio de pessoas escravizadas, realidade econômica e social que marcou profundamente a sociedade brasileira oitocentista.
Posteriormente, Joaquim Antônio deixou a sede do município e dirigiu-se para a região de Limeira, onde se estabeleceu como madeireiro na Fazenda Santo Antônio.
Ali começou a construir uma expressiva fortuna.
Sua trajetória demonstra como as atividades agrícolas, madeireiras, comerciais e de navegação estavam profundamente interligadas. A produção do interior precisava chegar ao rio, e o rio conduzia as mercadorias até o litoral e, consequentemente, aos grandes centros consumidores.
Um patrimônio que revela a dimensão dos negócios
Um documento de 1867, relacionado a uma ação judicial movida por Joaquim Antônio contra Alfredo Murat & Cia., permite dimensionar a riqueza que havia acumulado.
Entre seus bens estavam embarcações utilizadas na navegação e propriedades instaladas às margens do Itabapoana:
- o patacho Paraguassu, avaliado em 30 contos de réis;
- o patacho Caramuru, avaliado em 17 contos de réis;
- o hiate Lima, avaliado em 4:193$934 réis;
- a galiota Nova Tentação, avaliada em 200$000 réis;
- um armazém à margem do Itabapoana, no valor de 5 contos de réis;
- um trapiche e casa de residência em Itabapoana, avaliados em 56:832$000 réis;
- 52:496$934 réis em dinheiro;
- além de outros bens avaliados em 115:803$500;
- e dívidas no valor de 56:400$000.
O conjunto alcançava, segundo o documento, 172:203$500 réis.
Mais do que números, esse inventário oferece uma verdadeira fotografia da economia regional. Joaquim Antônio não era apenas proprietário de terras: possuía embarcações, armazém, trapiche, residência, dinheiro e participação direta na circulação das mercadorias.
Sua riqueza estava, portanto, ligada ao próprio funcionamento do Porto do Itabapoana.
O homem público
A influência de Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos não se limitou aos negócios.
Foi vereador em diversas legislaturas e chegou a presidir a Câmara Municipal de São João da Barra em 1872 e 1875.
Também exerceu o mandato de Deputado Provincial em duas legislaturas, a 20ª e a 22ª do Império.
Na região de Itabapoana, desempenhou ainda diferentes funções públicas, tendo sido delegado, juiz de paz e agente da Mesa de Rendas.
Essas funções demonstram sua importância dentro da estrutura administrativa e econômica local.
Uma família ligada à elite regional
Joaquim Antônio era casado com sua prima, D. Anna Rosa Vianna. O casal teve uma numerosa descendência:
- D. Amélia Eugênia Viana Bastos;
- Júlio Viana Lobato de Vasconcelos, nascido em 1856;
- Joaquim Viana Lobato de Vasconcelos, nascido em 16 de fevereiro de 1858;
- José Viana Lobato de Vasconcelos, nascido em 7 de junho de 1862;
- Alberto Viana Lobato de Vasconcelos, nascido em 26 de fevereiro de 1865, tendo como padrinhos D. Mariana da Silva e seu marido Bernardo Murat;
- Jefferson Vianna Lobato de Vasconcelos, nascido em 22 de dezembro de 1866, que se casou no Rio de Janeiro com D. Anna Graça e deixou descendência;
- Alberto Viana Lobato de Vasconcelos, nascido em 18 de setembro de 1868;
- Antenor Viana Lobato de Vasconcelos, nascido em 6 de julho de 1870;
- Cycero Vianna Lobato de Vasconcelos, nascido em 13 de janeiro de 1873, que se casou com sua prima Custódia das Neves Lobato, filha de Úrsula Lobato de Vasconcelos e Dionísio de Souza Neves.
A genealogia dessa família ajuda a reconstruir as relações entre algumas das famílias economicamente influentes da região.
O Porto do Itabapoana em pleno movimento
A trajetória de Joaquim Antônio ganha ainda maior importância quando observamos a quantidade de embarcações que frequentavam o Porto do Itabapoana.
A navegação de cabotagem ligava aquela região ao Rio de Janeiro, movimentando embarcações de diferentes tamanhos e tipos.
Entre elas estavam o brigue Otávio; os patachos Paraguassu, Caramuru, Estrela do Norte, Raquel, Santo Antônio e Amor Divino; a polaca D. Anna; as sumacas Christina, Feliz e Francisca; e os hiates São João da Cruz, São João Batista, Flor do Itabapoana, Floresta, Conceição Aurora e Empreendedor.
Havia ainda a lancha Campista, outras quatro lanchas e numerosas canoas.
Esse movimento não acontecia isoladamente. As pequenas embarcações percorriam o trecho entre Limeira e o rio Itabapoana, conduzindo principalmente café, que depois seguia pelo porto em direção a outros mercados.
O rio funcionava, portanto, como uma verdadeira estrada de água.
O vapor também chegava ao Itabapoana
A importância do porto pode ser percebida também pela presença da Companhia de Navegação a Vapor Espírito Santo & Campos, que mantinha uma linha regular ligando diferentes portos da costa brasileira.
A companhia fazia a ligação com Rio de Janeiro, Caravelas, Vitória e Mucuri, utilizando o paquete a vapor Diligente.
O vapor tinha escala programada em Itabapoana, demonstrando que aquele ponto da costa não era apenas utilizado por pequenas embarcações regionais.
O Diligente tocava o porto de Itabapoana quatro dias antes da lua cheia, durante a viagem de ida para Caravelas, e quatro dias depois, no retorno para a Corte.
A regularidade dessas escalas revela a inserção do Itabapoana em uma rede maior de circulação marítima.
A saída de Joaquim Antônio
Em 22 de abril de 1892, Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos e sua esposa desfizeram-se de seus bens localizados às margens do Itabapoana e deixaram a região, seguindo para o Rio de Janeiro.
Na Corte, Joaquim Antônio continuaria sua trajetória política.
Sua saída, porém, não apaga a importância de sua passagem pela região. Ao contrário, seus negócios constituem uma das evidências da dimensão econômica alcançada pelo extremo norte do antigo município de São João da Barra durante o século XIX.
Um porto que precisa ser lembrado
A história de Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos permite compreender que o desenvolvimento do antigo município de São João da Barra não estava concentrado apenas em sua sede ou em Atafona.
Ao norte, o Itabapoana articulava fazendas, propriedades rurais, produção de madeira e café, armazéns, trapiches, comerciantes, canoeiros, grandes embarcações e linhas regulares de navegação.
Limeira produzia.
As canoas transportavam.
O Itabapoana escoava.
As embarcações levavam a produção para outros portos.
E homens como Joaquim Antônio Lobato de Vasconcelos estavam no centro dessa engrenagem.
Sua história é, portanto, também a história de um Porto do Itabapoana que já foi importante corredor econômico do antigo território sanjoanense, conectando o interior produtivo à navegação costeira e aos grandes centros comerciais do Império.
Resgatar essas histórias é compreender que, muito antes da configuração territorial atual, o rio Itabapoana já desempenhava um papel fundamental na formação econômica e social da região que hoje conhecemos como São Francisco do Itabapoana.
