A música está na alma do sanjoanense.
As mais antigas referências históricas já ligam a história de São João da Barra à arte de Euterpe, mostrando que a música não surgiu apenas como forma de entretenimento, mas esteve presente nas manifestações religiosas, sociais e culturais da comunidade desde os primeiros tempos.
Já no século XVIII, encontramos referências à música acompanhando as festas do Divino. Havia cantorias e instrumentos musicais nas festas domésticas dedicadas aos santos, além da presença de diversos instrumentos registrados em antigos inventários.
A música floresce no século XIX
O século XIX foi particularmente fértil para a música sanjoanense. Na década de 1870, a cidade já contava com professor de música que também exercia a função de mestre de orquestra, enquanto outro profissional se dedicava ao ensino do piano.
E o piano, naquele período, estava presente em muitas casas da sociedade local, demonstrando como o aprendizado e a prática musical faziam parte da vida cotidiana.
A importância da música também pode ser percebida em momentos solenes da história da cidade. Quando o Imperador D. Pedro II visitou a região, foi recepcionado por uma orquestra formada por escravizados pertencentes ao Comendador Moraes Antas. O episódio revela não apenas a presença da música nas grandes ocasiões, mas também a participação de pessoas escravizadas na produção cultural daquela sociedade.
A tradição musical não se limitava à sede do município. Em São Francisco de Paula e em São Sebastião do Itabapoana também existiam suas próprias orquestras, demonstrando que a música estava espalhada pelo antigo território sanjoanense.
Liras, operários e democratas
No final do século XIX e início do século XX, a tradição musical ganhou ainda mais força com o surgimento de importantes sociedades e conjuntos musicais.
Entre eles estavam a Lira de Ferro e a Lira de Ouro, que posteriormente deram lugar a importantes agremiações como Operários e Democratas.
Essas instituições ultrapassavam a simples função de reunir músicos. Eram espaços de convivência, identidade, sociabilidade e expressão cultural, acompanhando diferentes momentos da vida da comunidade.
A música passou, assim, a fazer parte da própria identidade social de São João da Barra.
Uma tradição que atravessa famílias
A força dessa tradição pode ser percebida também em várias famílias sanjoanenses que, ao longo das gerações, mantiveram estreita ligação com a música.
Entre elas estão famílias como os Sena, os Lopes de Atafona e os Martins, entre tantas outras que ajudaram a manter viva essa manifestação cultural.
Não se trata, portanto, de episódios isolados. Existe uma verdadeira continuidade histórica, transmitida de geração em geração.
Muito mais que diversão
É preciso compreender essa importante vertente cultural da nossa gente e pensar em como utilizá-la também em benefício do crescimento da comunidade.
A música não pode ser relegada à condição de mera diversão inconsequente.
Ela é patrimônio, educação, identidade, memória e também pode representar oportunidade econômica.
Uma cidade que possui tradição musical pode transformar esse patrimônio em formação profissional, eventos, festivais, apresentações, turismo cultural, produção artística e geração de renda.
A música pode ser fonte de riqueza material.
Mas a riqueza que ela produz vai muito além do dinheiro: está na memória que preserva, na identidade que fortalece e no sentimento de pertencimento que desperta.
São João da Barra possui uma história musical que merece ser conhecida, preservada e, principalmente, valorizada.
A música já faz parte da nossa história. Cabe a nós fazer com que ela também participe do nosso futuro.
Antiga fotografia da Lira dos Democratas.

