Francisco José Alves de Siqueira Rangel, entre a riqueza, o poder e uma história marcada por tragédias
Entre as figuras de maior destaque da história de São João da Barra no século XIX está Francisco José Alves de Siqueira Rangel, conhecido popularmente como Chico Barão e posteriormente elevado à condição de Visconde de São João da Barra.
Nascido em São João da Barra, em 19 de dezembro de 1832, Francisco José era filho de D. Izabel Josefa Alves Rangel e do fazendeiro campista Antônio Joaquim de Carvalho Siqueira. Era neto do primeiro Barão de São João da Barra, José Alves Rangel, pertencendo, portanto, a uma das famílias de maior prestígio e riqueza da região.
Uma família de grande fortuna
Francisco José casou-se com sua prima, Ignácia Alves de Manhães Rangel, filha de D. Rachel Josefa Alves Rangel e do Comendador Feliciano José Manhães.
O casal pertencia a um dos círculos mais ricos da sociedade sanjoanense. Entre seus bens encontrava-se a extensa Fazenda Barra Seca do Norte, localizada na região que hoje integra o município de São Francisco do Itabapoana.
Na cidade de São João da Barra, o casal residia em uma magnífica residência situada na Rua Direita, na esquina do Beco do Bongosto, endereço que testemunhava a posição social privilegiada da família.
Barão e depois Visconde
A trajetória de Francisco José Alves de Siqueira Rangel também foi marcada pelos títulos concedidos pela monarquia brasileira.
Em 24 de março de 1881, recebeu do Imperador D. Pedro II o título de Segundo Barão de São João da Barra. Menos de um ano depois, em 18 de janeiro de 1882, foi elevado à dignidade de Visconde de São João da Barra.
Além dos títulos nobiliárquicos, era Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa e Comendador da Ordem de Cristo, honrarias que demonstravam seu prestígio dentro da sociedade do Império.
Poder político e influência local
A influência de Chico Barão não se limitava à riqueza. Ele também ocupou posições de destaque na vida política e militar da cidade.
Foi presidente do Partido Liberal e Comandante da Guarda Nacional em São João da Barra, concentrando considerável poder político e social em uma época em que as grandes famílias rurais exerciam forte influência sobre a vida pública.
Segundo os relatos históricos, era conhecido por seu temperamento autoritário e por posições consideradas preconceituosas, características que faziam parte das relações sociais profundamente hierarquizadas daquele período.
Uma história familiar fora do casamento
Apesar de seu casamento com a Viscondessa Ignácia, o Visconde teria mantido, na Fazenda Barra Seca, um relacionamento com Maria Francisca da Rosa, uma mulher negra.
Dessa relação nasceu Manoel Alves Rangel, filho que Francisco José reconheceu em seu testamento.
A história de Manoel é particularmente importante para a memória regional, pois seus descendentes permaneceram ligados à região e se espalharam por diferentes localidades do atual município de São Francisco do Itabapoana.
O episódio revela também aspectos das complexas relações sociais, familiares e raciais existentes nas grandes propriedades rurais do Norte Fluminense durante o período imperial.
Um testamento e uma morte trágica
Francisco José Alves de Siqueira Rangel havia realizado seu testamento em 8 de março de 1877, alguns anos antes de sua morte.
A vida do Visconde, entretanto, terminou de maneira trágica. Em 5 de outubro de 1883, ele tirou a própria vida, utilizando dois tiros na boca.
Antes de morrer, deixou uma carta destinada ao seu primo, o Barão de Barcelos, na qual teria relatado as razões de sua desdita. Entre elas estavam um amor impossível e diversas dívidas, que, segundo o relato, dificultavam o cumprimento de seus compromissos.
Sua morte encerrou precocemente a trajetória de um dos homens mais ricos, influentes e controversos da história de São João da Barra.
A morte da Viscondessa
A Viscondessa Ignácia Alves de Manhães Rangel não teve filhos com Francisco José. Após a morte do marido, permaneceu viúva até seu falecimento, em 24 de julho de 1892.
Assim, desaparecia também uma das famílias que haviam ocupado posição de destaque na sociedade sanjoanense durante o Segundo Reinado.
O túmulo que guarda essa história
O Visconde de São João da Barra foi sepultado no Cemitério do Santíssimo Sacramento, em São João da Barra.
Seu túmulo, entretanto, encontra-se atualmente em péssimo estado de conservação, situação que chama a atenção para a necessidade de preservação da memória material ligada às antigas famílias e personagens que fizeram parte da história da região.
A trajetória de Francisco José Alves de Siqueira Rangel reúne alguns dos elementos mais marcantes do Brasil Imperial: grandes propriedades rurais, riqueza, títulos concedidos pela monarquia, poder político, relações familiares entre as elites, relações inter-raciais, conflitos pessoais e uma morte trágica.
Mais do que a história de um barão ou de um visconde, sua trajetória ajuda a compreender um período em que São João da Barra exercia importante papel regional e em que as terras do antigo sertão sanjoanense começavam a formar as comunidades que, décadas mais tarde, dariam origem ao atual município de São Francisco do Itabapoana.
