Entre as personalidades que tiveram papel importante na história religiosa do antigo município de São João da Barra está o padre Antônio Domingues Valiengo, sacerdote que dedicou muitos anos de sua vida ao atendimento espiritual das comunidades do Norte Fluminense.
Embora não sejam conhecidas, até o momento, informações precisas sobre sua origem, registros históricos indicam que ele já se encontrava na região em 1861, quando exercia a função de segundo Vigário Colado da Freguesia de São Francisco de Paula de Cassimbas, localidade correspondente ao atual município de São Francisco de Itabapoana-RJ.
Foi naquela região que o padre Valiengo ganhou destaque pelo trabalho religioso desenvolvido junto à população. O historiador Alberto Lamego destacou sua dedicação ao afirmar que ele foi um sacerdote “incansável no zelo do seu rebanho”.
O historiador sanfranciscano Mário Barreto também ressaltou a importância do religioso para a comunidade. Segundo ele, o vigário tornou-se um importante elo entre a Igreja e a população regional, sendo profundo conhecedor da realidade local e atuando também como conselheiro. Permaneceu durante muitos anos à frente de suas funções religiosas.
A construção da Igreja de São Francisco
A atuação do padre Valiengo não se limitou às atividades religiosas. Sua preocupação com a estrutura das comunidades também deixou marcas importantes na história local.
Em 1878, adquiriu dos proprietários da Fazenda São João de Macabu, Jerônimo Pinto Rodrigues de Brito e sua esposa, D. Antônia Jorge Teixeira, um terreno destinado à construção da Igreja de São Francisco.
A escritura, lavrada em 12 de julho de 1878, registrava as dimensões do terreno: seis braças de testada, 107 braças de fundos e 80 braças na testada dos fundos. O imóvel foi adquirido pelo valor de 200$000 (duzentos mil réis).
A aquisição demonstra a participação direta do sacerdote na organização religiosa da região e na criação de espaços destinados ao culto e à convivência das comunidades.
Uma presença próxima das comunidades
O vínculo do padre Valiengo com a região já vinha de alguns anos antes.
Em 1873, ele havia adquirido uma casa naquela localidade com o objetivo de estar mais próximo da população e prestar melhor atendimento às comunidades. A partir dali, podia atender diversas pequenas comunidades, capelas e oratórios espalhados por uma extensa área rural.
Sua atuação também alcançou o extremo norte da região. Em 24 de janeiro de 1873, sua missão foi ampliada para que passasse a atender como vigário da Capela de São Sebastião, na Barra do Itabapoana, importante núcleo religioso localizado junto à foz do rio Itabapoana.
Essa presença religiosa contribuiu para aproximar a Igreja das populações que viviam em localidades distantes dos principais centros urbanos.
Vigário de São João Batista da Barra
Anos depois, em 1880, Antônio Domingues Valiengo assumiu uma das posições religiosas mais importantes da região: tornou-se Vigário Colado da Freguesia de São João Batista da Barra, permanecendo no cargo até 1895.
Durante esse período, esteve ligado diretamente à vida religiosa do antigo município de São João da Barra, que abrangia um vasto território e diversas comunidades rurais.
Sua trajetória demonstra a importância que os vigários exerciam naquele período. Além das funções estritamente religiosas, esses sacerdotes mantinham contato constante com as famílias, acompanhavam o crescimento das comunidades e participavam de acontecimentos que hoje fazem parte da memória histórica da região.
Os últimos anos
Em 1895, padre Antônio Domingues Valiengo foi transferido para a Freguesia de São Gonçalo de Campos.
Pouco tempo depois, faleceu, em 27 de março de 1895, encerrando uma trajetória de décadas dedicada à atividade religiosa no Norte Fluminense.
A memória da família Valiengo
Além de sua atuação religiosa, o nome de Antônio Domingues Valiengo permanece associado à história familiar da região.
Segundo a tradição popular, o padre teria descumprido as regras de celibato impostas aos sacerdotes da Igreja Católica e seria o patriarca da grande família Valiengo, que posteriormente se espalhou por diferentes localidades da região.
Essa informação pertence à tradição oral e familiar e, portanto, deve ser diferenciada dos fatos comprovados por documentos históricos. Ainda assim, faz parte da memória construída em torno da figura do sacerdote e ajuda a compreender a presença do sobrenome Valiengo na história regional.
Um legado religioso e histórico
A trajetória do padre Antônio Domingues Valiengo está profundamente ligada ao processo de formação das comunidades religiosas do antigo território de São João da Barra.
Sua passagem por São Francisco de Paula, Barra do Itabapoana e São João da Barra, além de sua participação na aquisição do terreno para a construção da Igreja de São Francisco, revelam um sacerdote que esteve próximo das populações de uma região ainda marcada por grandes distâncias, áreas rurais e pequenas comunidades.
Mais de um século depois de sua morte, sua história permanece como parte da memória religiosa e social do território que deu origem a diferentes municípios do Norte Fluminense.
