A escravidão na África, em muitos lugares, estava inicialmente relacionada às guerras e aos conflitos entre diferentes povos. Com o passar do tempo, porém, essa realidade sofreu uma transformação: a escravidão deixou de ser apenas consequência das guerras e passou também a ser uma das causas que alimentavam novos conflitos, impulsionada pela crescente demanda por pessoas escravizadas.
Para o Brasil, vieram africanos de diferentes regiões e povos. Eram Congos, Minas, Malês, Angolas, Cabindas, entre muitos outros. Falavam diferentes línguas e dialetos e possuíam experiências e conhecimentos diversos. Entre eles estavam lavradores, guerreiros, mestres, sábios, príncipes, comerciantes e estudiosos muçulmanos, além de mulheres, meninas e meninos.
A presença africana, portanto, não pode ser reduzida à imagem de pessoas destinadas exclusivamente ao trabalho braçal. Eram indivíduos com histórias, culturas, conhecimentos, crenças e diferentes posições sociais em suas terras de origem.
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| Cais do Rio Itabapoana |
Do comércio permitido ao contrabando
Durante determinado período, o comércio de africanos escravizados era realizado de forma legal. Entretanto, com o avanço da economia inglesa e as pressões pelo fim do tráfico atlântico, esse comércio passou à clandestinidade.
Foi justamente nesse período que o tráfico ilegal ganhou força em diversas regiões do Brasil.
No Norte Fluminense, o movimento também deixou suas marcas. O historiador Fernando José Martins, ao escrever sobre a região em 1858, registrou a importância que o comércio clandestino teve para o crescimento de Itabapoana e, possivelmente, também para São João da Barra.
Segundo Martins:
“O comércio de contrabando, feito neste tempo em maior escala, contribuiu poderosamente para o rápido crescimento da povoação de Itabapoana(hoje Barra do Itabapoana), e quiçá para a vila de S. João.”
O autor também descreve como o dinheiro movimentado por esse comércio permanecia na própria região:
“As tripulações, que ganhavam dinheiro às mãos cheias, aqui o deixavam; os salários e consertos dos vasos eram pagos com largas gratificações.”
Os “vasos” mencionados pelo historiador eram navios, e o relato se refere especialmente ao movimento ocorrido durante as décadas de 1840 e 1850, período em que o tráfico clandestino de africanos escravizados ainda encontrava caminhos para continuar funcionando.
Uma história difícil de contar
Embora Fernando José Martins registre o funcionamento desse comércio, seus comentários sobre o assunto praticamente param nesse ponto.
É preciso considerar o contexto em que o próprio historiador escreveu. Ainda estavam vivos e socialmente influentes importantes escravistas da região, entre eles André G. da Graça, Joaquim A. Lobato de Vasconcelos e o comendador Joaquim Thomaz de Farias, cunhado do próprio escritor, casado com sua irmã, Francisca.
Em uma sociedade na qual a escravidão estava profundamente ligada à riqueza, ao poder e ao prestígio social, criticar abertamente aqueles que pertenciam aos grupos dominantes poderia significar confrontar os próprios “maiorais” da época.
Por isso, o silêncio também precisa ser compreendido como parte da história.
Quando a escravidão se tornou invisível
A escravidão esteve tão profundamente integrada à sociedade que acabou sendo vista por muitos como algo normal e até natural.
Para grande parte da população livre, o trabalho realizado pelos escravizados fazia parte do cotidiano: nas lavouras, nas casas, nas atividades comerciais, nos portos, nos serviços urbanos e em praticamente todos os setores da economia.
Essa naturalização contribuiu para tornar o escravizado invisível enquanto pessoa, embora sua força de trabalho fosse indispensável para o funcionamento daquela sociedade.
Era uma contradição profunda: aqueles que eram privados da liberdade estavam entre os principais responsáveis pela produção da riqueza.
“As mãos e os pés” da sociedade
A expressão utilizada na época para definir os escravizados como “as mãos e os pés” da sociedade revela justamente o grau de dependência econômica existente.
Eram eles que plantavam, colhiam, carregavam, construíam, transportavam, cozinhavam, cuidavam das casas e realizavam inúmeras outras tarefas.
A riqueza de muitas famílias e o desenvolvimento econômico de determinadas localidades estavam diretamente relacionados ao trabalho dessas pessoas.
Por trás do crescimento de povoados, fazendas, portos e atividades comerciais, existiam vidas humanas submetidas à violência da escravidão.
A memória que precisa ser recuperada
Compreender a história de Itabapoana, São João da Barra e das antigas áreas do Sertão Sanjoanense exige também olhar para esse passado.
O crescimento econômico da região não pode ser contado apenas pela trajetória de fazendeiros, comerciantes, autoridades e famílias tradicionais. É necessário recuperar também a história daqueles que foram escravizados, suas origens, seus trabalhos, suas culturas e suas formas de resistência.
A escravidão não foi um episódio isolado. Ela fez parte da formação econômica e social da região e deixou marcas que atravessaram gerações.
Resgatar essa história é dar visibilidade a pessoas que durante muito tempo foram reduzidas apenas à condição de escravizadas, esquecendo-se que, antes de tudo, eram homens, mulheres e crianças com nomes, famílias, culturas, conhecimentos e histórias próprias.

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