Aprendemos na escola que o governo português, correndo o risco de perder o Brasil para outros países europeus, criou o sistema de capitanias hereditárias na terceira década do século 16. Da costa à linha do Tratado de Tordesilhas, separando o mundo entre Espanha e Portugal, foram traçadas 15 faixas horizontais e paralelas. Sem querer gastar dinheiro, a Coroa portuguesa doou cada faixa a um donatário ou até mesmo mais de uma. Houve caso em que a capitania tinha mais de um donatário.
A de São Tomé, depois de Paraíba do Sul, foi doada a Pero de Góes da Silveira em 10 de março de 1534, doação confirmada em 28 de janeiro de 1536. Pela carta de doação, ela contava com trinta léguas de terra, começando a treze léguas além de Cabo Frio, onde terminava a Capitania de Martim Afonso de Souza, e acabando no Baixo dos Pargos. Em direção ao interior, tudo o que se pudesse encontrar e fosse da conquista do rei. Pelo que se vê, limites muito imprecisos.
Tão logo Pero de Góis tentou ocupar seus domínios a partir do norte, em área de tabuleiro, surgiu um problema de fronteira que seria resolvido pacificamente com Vasco Fernandes Coutinho, donatário da capitania do Espírito Santo, por acordo de 14 de agosto de 1539. Como se tornasse difícil precisar o local em que estava situado o Baixo dos Pargos, ambos os donatários propuseram a D. João III que fixasse a divisa entre as duas capitanias no rio Tapemeri (Itapemirim), por eles batizado de Santa Catarina, pleito atendido por carta datada de 12 de março de 1543. Não foi necessário definir os limites ao sul, pois Pero de Góes só conseguiu se movimentar nas cercanias do rio Managé, atual Itabapoana, onde tentou implantar duas fundações. A empreitada do donatário fracassou em 1546, frente à falta de recursos e à resistência dos índios.
Mais uma vez, retorna a discussão a respeito do local em que se assentou Pero de Góes. Gabriel Soares de Sousa, em seu “Tratado Descritivo do Brasil em 1587”, registra que ele “... desembarcou no rio Paraíba, onde se fortificou, e fez uma povoação em que esteve pacificamente os primeiros dois anos, com os gentios Goitacazes seus vizinhos, com quem teve depois guerra cinco ou seis anos”. Eduardo Bueno aceita esta informação acriticamente em “Capitães do Brasil” (1999). Passemos a palavra ao próprio Pero de Góes, em carta dirigida a Martim Ferreira, seu sócio em Portugal, datada de 12 de agosto de 1545: “Depois de me vir, e largar no rio da Paraíba a nossa fazenda que fazíamos, determinei ver as águas, que nesta terra onde fico havia”. Não foi, portanto, às margens do rio Paraíba do Sul, que se iniciou a colonização portuguesa da região que receberia futuramente o nome de norte-noroeste fluminense.
Onde foi, então?  O próprio Pero de Góes responde na mesma carta: “Digo que isto é, neste próprio rio de MANAGÉ donde estou, ao qual vêm dar outros rios”. Segundo Teodoro Sampaio, Managé significa “reunião do povo” em tupi. Hoje, ele se chama Itabapoana. Ali ele ergueu a Vila da Rainha, na verdade um povoado erigido como sede da capitania. Recentemente, prospecções arqueológicas realizadas pela arqueóloga do Museu Nacional Maria Dulce Gaspar, em atenção aos Estudos Prévios de Impacto Ambiental da hidrelétrica Pedra do Garrafão, no rio Itabapoana, toparam com ruínas que ela e a historiadora Thereza Baumann atribuíram à Vila da Rainha.
A pesquisadora insinuou que se tratava de uma descoberta inédita, quando, na verdade, essas ruínas são conhecidas de longa data. Mas, de fato, estamos diante dos remanescentes da Vila da Rainha? A historiografia regional tem por certo que ela foi construída na enseada do Retiro, que se estende da foz do rio Itabapoana à ponta do Retiro. Logo em seguida, Pero de Góes teria subido o rio por dez léguas até encontrar a última queda d’água dele, de nascente para foz. Ali instalou um engenho movido à energia hidráulica, plantou cana e estabeleceu novo povoado. As ruínas encontradas pela arqueóloga Maria Dulce Gaspar corresponderiam a este estabelecimento.
Voltando à carta que Pero de Góes enviou a Martim Ferreira, lê-se: “por este rio a riba, onde começa de cair de quedas, e a se onde boamente podem as barcas ir, fui a ver e achei poderem-se fazer todos quantos engenhos quisermos, por ser um rio onde entram (...) navios (...) a olho, no mais, fica o engenho d’água com oitocentas braças de levada de três palmos sós em largo; damos à queda sessenta palmos largos para riba; ficarão os mestres muito satisfeitos da terra; e, de feito, e muito extremada terra, de massapés grudentos lhe chamam eles, e da maneira que eles desejavam (...) não tem esta terra senão ser dez léguas por água, pelo rio, e obra de sete léguas por terra, onde lhe mandei abrir um caminho, que pode um carro sem molhar pé chegar ao engenho, e cavalos e tudo o que homem quiser (...) plantar uma ilha que já tenho pelos índios roçada de canas.” A arqueologia confirma a história. A Vila da Rainha foi construída às margens do rio Itabapoana dez léguas da foz. Será? Voltamos ao assunto no próximo domingo.
Pero de Góes, donatário da capitania de São Tomé, tentou instalar-se às margens do rio Paraíba do Sul e desistiu de seu intento. Transferiu-se para o vale do rio Itabapoana, mais ao norte, onde ergueu a Vila da Rainha. Mas a dúvida é se esse povoado foi construído na foz do rio ou dez léguas acima dela. Ele mesmo explica a seu sócio Martim Ferreira, em carta escrita na Vila da Rainha, em 12 de agosto de 1545: “Entretanto que estes homens roçam [no rio Itabapoana dez léguas acima da foz], faço eu cá no mar dois engenhos de cavalos, que moia um deles para os moradores, e outro para nós somente; e isto, presentemente, para os entreter, porque, para estes dois engenhos, bendito seja Deus, tenho gente: e o mais que lhes pertence (...) E temos já sabido que estes dois engenhos de cavalos moem tanto como um de água boa.”
Não há dúvida de que Pero de Góes erigiu dois núcleos: um na costa e outro rio Itabapoana acima. Qual dos dois era a Vila da Rainha? Em carta a D. João III, rei de Portugal, também escrita na Vila da Rainha em 29 de abril de 1546, Pero de Góes narra o estado em que encontrou sua capitania ao retornar da Europa. Enquanto vários habitantes foram mortos e outros fugiram, “a não larguei e deixei, mas antes assentei e de novo comecei a povoar por um rio acima, obra de dez léguas do mar, por não haver águas mais perto, onde fiz uma mui boa povoação, com muitos moradores, muita fazenda, a qual, a eles e a mim, custou muito trabalho, por ser pela terra dentro (...) um engenho d’água, quase de todo feito, com muitos canaviais.”
Pela lógica da colonização, os núcleos populacionais europeus eram construídos inicialmente na costa, de onde era possível vigiar os intrusos vindos do mar e os nativos vindos do interior. Instalado na costa, Pero de Góes subiu com cautela o rio Itabapoana até esbarrar em sua última queda d’água, no sentido nascente-foz. Por esta mesma lógica, a Vila da Rainha teria sido erguida na enseada do Retiro, entre a desembocadura do rio Itabapoana e a ponta do Retiro.
Em torno de 1784, o capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis vistoriou a enseada do Retiro e teceu considerações sobre o rio Itabapoana. Ele registrou que a barra do rio era rasa e perigosa para a entrada de embarcações. Esta barra oscilava para o sul e para o norte. O cartógrafo aceitou a informação de que a foz do rio, no passado, situava-se mais ao sul, próxima ao sítio conhecido por Santa Catarina das Mós.
Nesse ponto, ele encontrou ruínas de um povoado. Sem contar com fontes escritas seguras, fiou-se nas fontes orais. Escreve ele em famoso relatório de 1785 (“Descrição Geográfica, Política e Cronográfica do Distrito dos Campos Goitacás que por Ordem do Ilmo e Exmo Senhor Luiz de Vasconcellos e Souza do Conselho de S. Majestade, Vice-Rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, etc se Escreveu para Servir de Explicação ao Mapa Topográfico do mesmo Terreno, que debaixo de dita Ordem se Levantou. Rio de Janeiro”: manuscrito original): “...julgo certa a tradição de que aquela referida barra [do rio Itabapoana] fora antigamente mais ao sul, no sítio chamado S. Catarina das Mós*. Eu refletindo bem nesta notícia, me propus a indagar os vestígios dela; com pouca diligência os achei, e principiam mesmo chegado as mós; e é um valado profundo entre o combro [cômoro] do mar e a terra firme, que vai fenecer na gamboa, que forma o Cabapuana [Itabapoana]: é natural que por ali encanassem as águas do rio. Subindo-se uma pequena eminência deste lugar, entre densos matos, se encontram resíduos de paredes e telhas, que mostram haver ali antigamente algum estabelecimento que o tempo consumiu.”
Sem documentação escrita, Couto Reis confunde Pero de Góes com seu filho Gil de Góes e chama a Vila da Rainha de Santa Catarina das Mós. Alberto Frederico de Morais Lamego tentará desembaraçar este nó no livro “Mentiras Históricas”, editado no século 20. A confusão entre Vila da Rainha e Vila de Santa Catarina das Mós era perfeitamente explicável porque a capela erigida na Vila da Rainha tinha por invocação Santa Catarina, em homenagem à rainha de Portugal, esposa de D. João III. No local, restaram também duas mós que resistiram ao tempo.
Sempre disposto a questionar e a se questionar, Couto Reis levanta duas hipóteses em nota lateral a partir do asterisco acima. “São duas mós assaz rijas, de um mármore grosseiro com mesclas de cor mais negra, mais ou menos escabrosas, uma toda inteira com mais de 5 palmos de diâmetro e 1 de grossura; e outra quebrada, não por casualidade senão por curiosidade louca. A respeito delas, há duas opiniões confirmadas por tradições. A primeira assenta que Gil de Góis da Silveira, donatário que foi destas terras, as mandara vir da Europa para a fazenda ou estabelecimento que erigia na vizinhança daquele sítio, porém que recebendo continuados insultos e hostilidades dos índios, desgostoso o abandonara e se retirara para a Corte. A segunda, que no tempo em que os holandeses se senhorearam de alguns de alguns dos nossos portos, um deles edificou naquele lugar um engenho de açúcar e outras fábricas, e retirando-se deixou ali as referidas mós.” Há, portanto, vários indícios de que a Vila da Rainha foi construída na costa. Continuamos na próxima semana.
A geografia e a história ambiental ajudam sobremodo a interpretar as descobertas arqueológicas. Como já mostrou Sérgio Buarque de Holanda, em “Monções”, os europeus desenvolveram técnicas e tecnologias para singrar os oceanos, mas não para lidar com os ecossistemas dos continentes que atingiram pela expansão marítima. Assim, acabaram por adotar as práticas dos povos nativos para conquistar os ecossistemas dos continentes invadidos. Sustento que a barreira mais resistente ao europeu foi a ecossistêmica.
Aplicada às capitanias de São Tomé e do Espírito Santo, esta tese pode se confirmar. Pero de Góes da Silveira, donatário da Capitania de São Tomé, e Vasco Fernandes Coutinho, donatário da Capitania do Espírito Santo, não souberam definir onde ficava o Baixo dos Pargos, parcel na plataforma continental muito extensa e imprecisa na cartografia do século 16. Daí, proporem ao rei de Portugal um limite claro entre elas: o rio Itapemirim.
Por sua vez, Pero de Góes, não conseguiu, com seus recursos financeiros e com a associação ao comerciante Martin Ferreira, que vivia em Portugal, cobrir todo o território de sua capitania, que, se tinha seus limites precisos no norte, deixava em aberto suas fronteiras no sul. Sustento que foi a planície aluvial que não permitiu a fixação de Pero de Góes no trecho final do rio Paraíba do Sul. Sendo um rio grande e tendo seu trecho baixo na planície fluviomarinha, o Paraíba do Sul oferecia muitas dificuldades a quem vinha de um continente cujos ecossistemas já haviam sido dominados e destruídos pela sociedade europeia.
A nova realidade ecológica obrigava um aprendizado dos europeus com os povos nativos. Assim, por cautela, os assentamentos populacionais europeus foram construídos na zona costeira. Até o século 18, a costa era bem conhecida e o interior, nos mapas, era um vazio ocupado por “índios brabos”. Daí a suposição de que os primeiros povoados europeus foram erigidos na costa. Os nativos do interior não foram as únicas ameaças aos intrusos até o século 19, como ilustram o príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied e o botânico Auguste de Saint-Hilaire.
Quem conhece o rio Itabapoana sabe que ele nasce em zona cristalina, atravessa tabuleiros, forma um grande banhado conhecido como lagoa Feia do Itabapoana e desemboca no mar em estreita praia de areia. Couto Reis informou que sua foz oscilava para o norte e para o sul e que, em passado remoto, deveria desembocar mais ao sul. O geólogo canadense Charles Frederick Hartt (“Geologia e Geografia Física do Brasil”. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1941) escreveu, em 1870, que o Itabapoana desaguava no mar por um pequeno delta. Parece verdade. A foz atual do rio descreve uma grande curva para o sul por redução de vazão em face do desmatamento e de represas tanto quanto pela força da corrente marinha. À esquerda e à direita, há dois braços que hoje não conseguem mais chegar ao mar.
Acompanhando os historiadores Márcio Werneck e Sylvia Paes, anos atrás, deparamos com concreções de argamassa e tijolos grandes numa colina à esquerda da lagoa Salgada, um antigo córrego imediatamente ao sul da foz do Itabapoana que hoje tem sua voz tapada. Pareceu-nos remanescentes de uma pequena instalação portuária. As condições ali são ideais para uma fundação do século 16. A colina faz parte da Formação Barreiras e fica cerca de quinhentos metros do mar. Toda a zona das barreiras era, até o século 19, coberta por densa floresta e denominada de Sertão das Cacimbas.
Deste ponto, Pero de Góes e seus ajudantes poderiam vigiar com facilidade a chegada de navios estranhos, embora não tenham detido Henrique Luiz, que invadiu a vila e a pilhou. Dali também podiam controlar o interior, de onde vinham os nativos. Tendo erguido a vila e dois moinhos, Pero de Góes e os habitantes do povoado subiram o rio Itabapoana, bem navegável até o século 20, chegando a sua última queda d”água no sentido nascente-foz. Naquele ponto, havia florestas e energia para movimentar um engenho. Pela lógica colonial, os aldeões ergueram outro povoado e um engenho.
Tudo indica ter sido esta a rota de ocupação e colonização de uma ínfima parte da capitania de São Tomé. O malogro do empreendimento deve ser tributado mais ao ataque de Henrique Luiz, proveniente da capitania do Espírito Santo, do que aos índios. Parece que a falta de recursos financeiros também contribuiu para o fracasso da iniciativa.

Para dirimir dúvidas, pesquisas arqueológicas deveriam ser efetuadas na enseada do Retiro, mais especificamente entre a lagoa Salgada e a foz do rio Itabapoana.
As pesquisas devem nos levar a uma decisão: por onde começou uma colonização contínua da capitania de São Tomé em estilo europeu? Até ao ponto aonde chegamos, há quatro opções: a Vila da Rainha, na margem direita da foz do rio Itabapoana ou a dez léguas dela; a Vila de Santa Catarina das Mós, na foz da margem direita do rio Itapemirim; o acampamento de pescadores na margem direita da foz do rio Paraíba do Sul ou as sesmarias doadas a sete fidalgos entre os rios Macaé e Iguaçu.
Já discutimos demoradamente o caso da Vila da Rainha, a partir de matéria jornalística publicada no jornal “O Globo”, edição de 19/09/2009, intitulada “Semente da Colonização”. Nela, a arqueóloga Maria Dulce Gaspar, do Museu Nacional, sustenta que a Vila da Rainha instalou-se junto à última queda d’água do rio Itabapoana, no sentido nascente-foz. Recorrendo a escassas fontes primárias escritas, concluí, provisoriamente, que Pero de Góes ergueu o povoado na enseada do Retiro, entre a foz do Itabapoana e o córrego (depois lagoa) Salgado, onde construiu dois moinhos movidos a cavalo. Desta base, ele subiu o rio Itabapoana até encontrar uma queda d’água, onde criou novo povoado e construiu um engenho movido a energia hidráulica. Foi este assentamento que a arqueóloga considerou um achado, quando, na verdade, de longa data ele é conhecido. Ela o trouxe à tona novamente pela exigência legal de levantar sítios arqueológicos quando empreendimentos só podem ser construídos mediante estudos de impacto ambiental. Pena que estes estudos também não exigiram prospecções na enseada do Retiro.
Na mesma matéria, a historiadora Thereza Baumann considera Pero de Góes um visionário. Ao introduzir a cana de açúcar na futura região norte-noroeste fluminense, ele estaria antecipando a grandeza da zona açucareira do Rio de Janeiro. Ora, Pero de Góes apenas seguia o manual da colonização. Plantou cana porque se tratava de um produto com grande aceitação no mercado europeu, em terras de massapé com clima tropical. Como quase todos os donatários, foi à falência.
A segunda hipótese foi levantada por Alberto Frederico de Morais Lamego no primeiro volume de “A Terra Goitacá” e, mais tarde, no seu livro “Mentiras Históricas”. Valendo-se de fontes primárias, ele sustenta que a Vila da Rainha foi erguida na foz do rio Itabapoana e passou a ser chamada também de Vila de Santa Catarina das Mós porque a padroeira era Santa Catarina, homenagem à rainha de Portugal na época. De acordo com ele, Santa Catarina das Mós foi erigida por Gil de Góes, filho de Pero de Góes, associado a João Gomes Leitão, no início do século 17, numa segunda tentativa de colonizar a capitania de São Tomé. Falindo, Gil de Góes devolveu oficialmente a capitania à Coroa portuguesa em 1619. Requereu-a mais tarde Salvador Correia de Sá e Benevides para parentes seus, ante o sucesso obtido pelos sete fidalgos (Sete Capitães). 
No acordo de partilha entre seus parentes, “a capitania que foi de Gil de Góes começa em Santa Catarina das Mós, rio Tapemirim donde parte da banda do norte com a do Espírito Santo e vai correndo para a parte do sul, até o rio das Ostras, Santa Ana de Macaé, donde parte com Diogo de Faro e Cabo Frio, em que se entende, não haverá 30 léguas e porque conviera para os tempos vindouros que cada capitania fique demarcada, eles por seu procurador, tinham já mandado fundar a vila de Santa Catarina das Mós, medindo 5 léguas para o sul que com 45 nas terras do sul fazem as 50 léguas de João de Sá.” Em 1679, acrescenta Lamego, ainda havia vestígios de casas e igrejas, de Santa Catarina.
A terceira hipótese é a de que pescadores de Cabo Frio, liderados por Lourenço do Espírito Santo, teriam levantado um arraial na margem direita da foz do rio Paraíba do Sul para ampliar sua área de pesca. Por ter a mulher do líder morrido afogada nas águas turbulentas em que o Paraíba se encontra com o mar, o pescador, desgostoso, deslocou-se rio acima, onde fundou um núcleo populacional que daria origem à Vila de São João da Praia, hoje São João da Barra. A hipótese carece de pesquisas
Por fim, as sesmarias doadas aos Sete Capitães em 1627. Em três excursões feitas por eles entre 1632 e 1634, iniciou-se uma colonização contínua de tipo europeu no âmbito da capitania, e não com a cana, mas sim com o gado. A cana entra logo depois. O documento legado por eles, que, posteriormente foi batizado de “Roteiro dos Sete Capitães, não deixa dúvidas quanto a esta instalação. Seu sucesso despertou a cobiça de Salvador Correia de Sá e Benevides, dos jesuítas e dos beneditinos. Por mais que a historiografia regional tenha execrado Benevides, para o bem ou para o mal, ele foi a figura mais importante na instalação de Campos e de São João da Praia, além de ser uma das personalidades mais destacadas do século 17 no mundo luso. A arqueologia tem muito trabalho pela frente.

Vila da rainha -pesquisas arqueológicas deveriam ser efetuadas na enseada

LEGENDA AINDA EM CONSTRUÇÃO

CASA DA REALIDADE -SERTÃO DE SÃO JOÃO DA BARRA


MAPA CULTURAL- BARRA DO ITABAPOANA-RJ


- Para poucos que não sabem do passado de Barra do Itabapoana RJ,& Máquina RJ.
- Não sei se relatos são verdadeiros! Tudo a qual estou narrando foi relatos dos mais antigos moradores da região.
- Começando pelas ruínas da fábrica de farinha Tipity  ainda chamam a atenção quem visita a localidade de Máquina RJ,perto de Barra do Itabapoana RJ, próxima às margens do Rio Itabapoana. O que algumas pessoas não sabem, no entanto, é que  agora tem novo dono, a qual não mencionarei por direitos de privacidade, foi sede há quase sete décadas, de um dos maiores empreendimentos da história da região  a qual pertencia ao município de São João da Barra RJ,hoje ao município de São Francisco de Itabapoana RJ, a fábrica de farinha Tipity.
- Hoje a mesma, serve de ordenha de vacas leiteiras, reaproveitamento do que sobrou da antiga fabrica de farinha Tipity.
- Lembro quando criança havia muitos boatos que a fabrica foi interditada em funcionamento, a relatos que funcionários tiveram que sair com a roupa do corpo, na época já existia lavador de mandioca que tal tamanho até os dias de hoje nunca se tinha visto, em outro lugar, outros relatos é que na época o Barão já tinha o fusca de teto solar, e um caminhão apelidado como tipitão,e muito mais trator de esteira para abrir ruas ,e estradas na região,relatos de um trilho de ferro para vagões levar o amido até o pier de madeira,saindo do armazém assim chamada na época, em Barra do Itabapoana, há relatos que a produção seria transportada de navios de madeiras até as capitais,na época já existia estaleiro para construção de navios em Barra do Itabapoana RJ.
- Outros relatos que não sabemos se é verdade, é que o caminhão trazia a produção até Barra do Itabapoana e era descarregado manualmente subia a um pier feita de madeira , as sacas de 50kg ate os porões dos navios.
- Há outro relato que naquela época já existia um guincho de ferro preso a uma sapata quadrada fixa ao chão, feito com óleo de baleia, e cal, e pedra brutas, para descarga de produtos destinados a fábrica Tipity.
- Há relatos de um farol para orientar os navios, tal que ainda existe vestígios do mesmo na rua : ‘’Ludwing Kummer’’,antes de chegar a beira rio lado direito no sentido norte.

- Inaugurada em janeiro, não se tem a data e dia certo de 1940 pelo Barão austríaco ‘’Ludwing Kummer’’ em sociedade com ‘’Aurélio Faccioli Grimani’’, a fábrica de farinha Tipity foi um projeto ousado para a época. O principal objetivo era abastecer o mercado nacional com um tipo de farinha de mandioca apropriada para a fabricação de pães. Todo o complexo de produção foi construído em apenas 365 dias do ano.

- No auge de seu funcionamento a fábrica chegou a produzir uma média de 20 mil sacas de 50kg por mês, gerando cerca de 350 empregos diretos e superando rapidamente a meta inicial de 20 mil sacas mês. A principal matéria-prima era proveniente das lavouras da região, aquecendo agricultura e garantindo o sustento de várias famílias de pequenos produtores rurais da região. 

- Mas a fase de prosperidades começou a declinar três anos após a fundação da Tipity, quando o mundo vivia sob o impacto da segunda Guerra Mundial foi um conflito militar global que durou de 1939 a 1945, envolvendo a maioria das nações do mundo. Além de limitar a produção em apenas 12 mil sacas, mês, o governo brasileiro adotou uma política de interesses comerciais com a Argentina, de onde passou a ser importada a farinha de trigo que substituiria a farinha de mandioca panificável. 

- Nessa mesma época o ‘’Barão Kummer ‘’ viveu um drama na sua vida pessoal. Acusado de ser (espião nazista), ele foi obrigado a prestar uma série de esclarecimentos. Mesmo não sendo confirmada a sua ligação com os nazistas, o episódio acabou contribuindo para que a fábrica de farinha Tipity entrasse de uma vez por todas em decadência.

- ‘’Ludwing Kummer’’ faleceu nos anos 90, e hoje tem em Barra do Itabapoana RJ em sua homenagem existe hoje uma rua dedicada a ele, chamada de rua: Ludwing Kummer, a beira rio no sentido norte.
- Pensando e refletindo hoje, Barra & Máquina, poderia ser a grande economia do município, e um grande pólo industrial, a qual traria muitos benefícios para o povo local. Poderia está bem desenvolvido industrialmente e como uma coisa trás a outra,a Tipity impulsionaria a economia da região,que certamente precisaria de outras indústrias para outras demandas como ex:um polo industrial.Poderia ter tido outro rumo nossa história.
- Fatos relatados podem não ter acontecido, mas são relatos de antigos moradores da época.
- Esse pequeno relato, não tem a intenção de denegrir. Ou produzir fatos que não tenha acontecido na época, nem a intenção denegrir qualquer cidadão, ou autoridade da época. 
- Simplesmente para quem não conhece como foi o inicio de duas localidades, que hoje podia ser um pólo industrial que ajudaria muito o interior do estado do Rio de Janeiro.
Relatos de antigos moradores que sobreviveram na quela época.

Tipity em Barra do Itabapoana RJ, & Maquina RJ.Uma caixa de surpresa.Full HD. Vídeos produzido por Marcio Silva - DroneBuziosBrasil













RUÍNAS DE ANTIGO ESTALEIRO EM BARRA DO ITABAPOANA-PEQUISANDO

Vídeos da Boca da barra - Rio Itabapoana - Barra do Itabapoana-SFI-RJ - Vídeos produzido por Marcio Silva

Banda Marcial do Colégio Estadual São Francisco de Paula.
Colaboração de Adriana

Banda Marcial do Colégio Estadual São Francisco de Paula.

TIPITY 1940

JÁ ESTÁ À VENDA A 2ª EDIÇÃO DO LIVRO "SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA" DO ESCRITOR E PESQUISADOR MÁRIO BARRETO MENEZES.

NOVO LIVRO DO ESCRITOR E PESQUISADOR MÁRIO BARRETO MENEZES.

  Homenagem de Antonio Gomes (tataraneto) a esse pioneiro e incansável e ilustre personagem de são Francisco do Itabapoana. JOAQUIM GOMES CRESPO. HOJE SEU NOME ESTA EM RUA.AV.E ESCOLA. nascido em 1874 nas cercanias de campos.ficou conhecido como Joaquim Compra Mundo. 


  Teve fazendas desde Campo passando por são João da Barra (antigo sertão) até Kennedy. Talvez vcs mais novos nunca ouviram falar apesar de seus sobrenomes Crespo ou Gomes ou Rangel.mas acreditem.esse foi o CARA. Faleceu em 1951.seu inventário só foi fechado recentemente. Mais de 100 filhos (entre legítimos ou não) entraram como herdeiros. Estima-se que chegou a ter mais de 10.000 alqueires de terras. 
   E começou do zero. Se vc conhece alguém dessas regiões com mais de 80 anos pergunte sobre. A pesquisa continua se alguém tem mais formações para enriquecer, entre em contato: ubsdesign@gmail.com
foto original

JOAQUIM GOMES CRESPO


No colo do pai aos 8 meses
Mário Barreto Menezes, de origem humilde, filho de pequeno produtor rural, viveu parte da sua infância na situação denominada Santa Isabel, localizada junto à lagoa da Bamburra, no então segundo distrito do município de São João da Barra, onde aos seis anos de idade, começou a ajudar seus pais prestando pequenos serviços como pastorear porcos, conduzir bois de carro do pasto até o curral, descobrir e sinalar ninhos de galinhas da Angola etc.

    Aos sete anos, começou a estudar numa escola primária existente no povoado de Gargau e posteriormente cursou o secundário na cidade de Campos dos Goytacazes, no Colégio Batista Fluminense quando durante as férias prestava serviço no sítio “Muritiba”, próximo a Gargau, exercendo entre outras a função de leiteiro. 
   Terminando o curso ginasial, já com dezessete anos de idade, passou a executar no mencionado sítio todos os serviços atinentes a uma propriedade pecuária (pião). Assim, domou animais cavalares, ordenhou vacas, reparou cercas de arame farpado, arou terra, plantou capim, conduziu carro de bois, remou canoa no rio Paraíba participando da travessia de bovinos no mesmo, curou, ferrou, sinalou, castrou bovinos, participou da condução de boiadas para a cidade de Campos e outras diversas localidades etc., durante três anos, findo os quais retornou à cidade de Campos dos Goytacazes onde iniciou o curso Técnico de Contabilidade interrompido na metade do terceiro ano quando ingressou no IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, iniciando sua vida de ibegeano. 
   Foi colaborador do jornal “Correio de São João da Barra” e do jornal “Mais !”. E,,ste último editado por “Mínima Editora”, em Gargau.











Historiador Mário Barreto Menezes

Os Sete Capitães (Fonte:Prefeitura de Campos dos  Goytacazes)

A capitania de São Thomé, compreendida entre o rio Macaé e o rio Itapemirim, doada a Pero de Góis em 1536, sofreu a primeira tentativa de colonização com a fundação da Vila da Rainha, às margens do rio Itabapoana. Mas os nativos da nação goitacá que, inicialmente, auxiliaram Pero de Góis, destruíram-na, obrigando o donatário a abandoná-la.
Como as capitanias eram hereditárias, o filho de Pero, Gil de Góis, recebeu as terras e tentou colonizá-la, fundando a Vila de Santa Catarina das Mós, também à margem do Itabapoana, mas num outro local. Do mesmo modo, os índios goitacá ajudaram o donatário, mas, pouco tempo depois, atacaram a vila, destruindo-a. Gil de Góis renuncia à capitania e retorna a Portugal. As terras ficam abandonadas.
  
Abandonada, a capitania foi alvo de aventureiros de todo tipo. Muitos foram os pedidos de sesmarias - terra inculta ou abandonada que os reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispusessem a cultivá-la.
Martim Corrêa de Sá, governador do Rio de Janeiro, recebeu instruções da Coroa portuguesa para distribuir as terras abandonadas e atende, em 19 de agosto de 1627, o pedido feito por sete capitães que possuíam propriedades na cidade do Rio de Janeiro e Cabo Frio. Os capitães lutaram durante muitos anos contra os franceses que, com apoio dos tupinambás e tamoios, queriam fundar no Rio de Janeiro a França Antártica. Expulsos os franceses, o governo se volta contra os índios e os capitães ajudaram a aniquilar os tamoios e tupinambás. Por suas lutas em prol da Coroa, solicitam e recebem as terras “ao norte do rio Macaé”.  
Na carta dirigida ao governo do Rio de Janeiro, os capitães escrevem, sobre a aniquilação dos nativos que auxiliaram os franceses: “nós, portugueses, fomos vencedores. Não pela coragem superior a nossos adversários, porém pela vantagem das armas de fogo e disciplina, que nos asseguravam sobre homens nus, que não podiam opor-nos mais que a sua intrepidez; fizemos neles uma grande mortandade, ficando abandonadas as suas povoações: os tamoios ficaram de todo aniquilados, e o resto dos tupinambás abandonaram as montanhas vizinhas e seguiram para o norte”. (Lamego, 94).
Nas terras fluminenses, as nações indígenas, já quase totalmente destruídas, tiveram que ceder suas terras aos invasores e seus braços, sua vida livre, aos colonos, novos donos do novo mundo. Os padres das diversas ordens - jesuítas, beneditinos, carmelitas - amansavam os nativos que sobreviveram aos canhões e carabinas dos portugueses, forçando-os a viver nos aldeamentos religiosos para servirem aos colonos, como escravos.
O goitacá ainda resistia. Para que se formasse na Corte uma opinião contra esta nação, religiosos e servidores da Metrópole escreviam e contavam atrocidades cometidas pelos índios, estigmatizados como antropófagos, sujos, asquerosos e violentos. Em verdade, os goitacás defendiam suas terras, o direito de viver em liberdade, desde as tentativas de colonização da capitania de São Thomé por Pero de Góes e, depois, pelo seu filho, Gil de Góes. Homens brancos viviam entre eles sem problemas, fato que desmentia as versões fantasiosas narradas à Corte.
A demora na conquista dos campos pode ter sido pelas condições geográficas que colaboraram para a resistência goitacá. “As formações geológicas impediam a existência de bons portos; e, mesmo, de simples ancoradouros ao Sul do Paraíba; por isso, a terra é quase desconhecida, não obstante haver André Gonçalves batizado o Cabo de São Thomé, em 21 de dezembro de 1501” (Lamego, 93).
Os Sete Capitães e o início efetivo da colonização de Campos
Nos primórdios da ocupação do atual território de Campos dos Goytacazes pelo homem branco, no século XVII, atuaram como protagonistas os chamados Sete Capitães: Miguel Ayres Maldonado, Miguel da Silva Riscado, Antonio Pinto Pereira, João de Castilho, Gonçalo Corrêa de Sá, Manuel Corrêa e Duarte Corrêa. Em 12 de dezembro de 1632, parte daquele grupo de homens, com mais dezessete pessoas, alugou em Cabo Frio uma sumaca - embarcação tipo navio de pequeno porte, muito usada na costa brasileira, conforme o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda – e iniciou viagem até as terras que receberam “em recompensa de nossos serviços guerreiros, segundo a nossa petição rezava, no decurso de trinta anos prestados ao Estado...” (LAMEGO, pág. 94). Entre os dezessete estavam alguns dos filhos dos Sete Capitães e os índios amansados Valério Corsunga e Miguel. Na embarcação, “metemos nossa comedoria e nossas armas”, segundo o roteiro (diário de viagem) registrado anos depois, no Cartório de Cabo Frio.  
Os capitães não receberam toda a capitania de São Thomé, mas sim, a parte compreendida entre o rio Macaé, correndo a costa, até o rio Iguaçu, ao norte do Cabo de São Thomé. Na viagem de sumaca, que tinha por nome Senhora da Guia, os capitães passam pela barra de São João e chegam a Macaé às 08:30h do dia 02 de dezembro de 1632. Lá, encontram uma povoação de casas de palha e, de acordo com Maldonado, que escreve um diário da viagem (diário que ainda hoje gera polêmica em relação à sua autenticidade e autoria, mas que continua sendo documento único e sempre recorrível para que se possa conhecer e estudar o início da colonização dos campos) “não achamos gente de maior consideração. Só mamelucos muito costeados e agradáveis”. Mais para o interior, no entanto, encontram moradias melhores e moradores que são “gente da nossa massa”. A autoria e autenticidade do diário da viagem ainda geram controvérsia, mas o “roteiro” continua sendo um documento único e sempre recorrível para que se possa conhecer e estudar o início da colonização dos campos.
A nação goitacá já não era a mesma que aterrorizara os invasores nos quase cem anos anteriores à chegada dos capitães. Estes conseguem informações sobre os poucos índios existentes na sesmaria: duas aldeias, sendo uma às margens da Lagoa Feia, “cuja ferocidade estava pouco mais ou menos”, e a outra, no Cabo de São Thomé, cujos índios são “pacíficos”. Com as informações obtidas pelos brancos de Macaé, os capitães, mais confiantes, partem para a nova terra no dia 12 de dezembro, levando um intérprete. Encontram índios com os quais fazem contato, à beira da Lagoa Grande, “o grande mar de água doce, a qual eles chamavam pelo seu idioma...”  escreve Maldonado no seu roteiro. “Era um grandíssimo lago ou lagoa de água doce, a qual estava tão agitada com o vento sudoeste, tão crespas suas águas e tão turvas, que metiam horror, aonde lhe demos o apelido de lagoa feia”.
No Cabo de São Thomé os invasores se deparam com outra aldeia goitacá. Com eles, vivem onze náufragos portugueses, sendo quatro marinheiros e sete degredados, “primeira raiz branca na planície”, no dizer de Alberto Lamego. O fato revela que os goitacá não podiam ser antropófagos e cruéis como se acreditava na capital. Maldonado narra em seu roteiro:
“(...) nisto chegaram todos de arcos e flechas, o seu maioral na frente, acompanhado de quatro homens da nossa massa, estes nos saudaram junto com o maioral pelo seu belo modo... Nisto o maioral dirigiu ordem para todos recolherem arcos debaixo  do braço e todos bateram palmas e abaixaram as cabeças, o maioral se dirigiu ao intérprete, para que nos fizesse saber que não reparássemos em virem de arcos, pois não sabiam se viriam outros que os viessem atacar...”.
 Nas conversas com os náufragos, os capitães ficam sabendo das grandes pastagens mais para o interior.
Seguindo em frente, os capitães descobrem a barra do açu, limite da sesmaria. Baixam uma lancha, com os marcos (que serviriam para a demarcação das glebas de cada um) e o intérprete, além de oito homens. Mas o tempo muda de repente, fato que ocorre até hoje naquela região (PEIXOTO, 1984. P.29), e os oito retornam à lancha, ficando em terra apenas o intérprete. Embarcaram na sumaca e retornaram a Macaé e, em seguida, a Cabo Frio.
No dia 19 de dezembro de 1632, os capitães voltaram aos campos, mas, a partir de Macaé, seguiram a pé, levando cachaça e missangas que haviam sido compradas no Rio de Janeiro. Partiram levando a cachaça em cabaças (espécie de cuia, feita do fruto do Porongo, trepadeira que dá um fruto oco e de casca dura), espadas, lanças, armas de fogo e comida. Pernoitaram à margem de uma mata não muito longe do mar. No dia 20, caminharam até o final da tarde e, no dia 21, andaram todo o dia, até se depararem com as campinas. Acamparam “à margem de um chavascal” (mata de plantas silvestres) e o novo intérprete que trouxeram de Macaé afirmou que estavam próximos da aldeia dos índios da Lagoa Feia.
No seu roteiro, Maldonado escreve: “ao romper da alva, fomos reconhecidos pelos selvagens, porém, estes, reconhecendo o prático (intérprete) e seus camaradas, não houve novidade alguma”. Os capitães oferecem espelhos e cachaça aos índios e entram na aldeia. Os índios fizeram um alarido, ao ver os brancos e se mostram satisfeitos com as bugigangas.
Após ganharem a simpatia dos goitacás, os capitães conheceram a Lagoa Grande que, com o vento sudoeste, “está tão bravia, com águas tão crespas”, que reforçou a primeira opinião que tiveram, quando lhe deram o nome de Lagoa Feia. No dia 23 saíram da aldeia acompanhados dos índios e, caminhando pela imensa pradaria, diz Maldonado: “nossos corações se abrasaram de alegria por vermos que tínhamos alcançado tão rica propriedade para nossas criações cavalar e vacum”. Revela, assim, que vieram aos campos com o intuito de criar gado, por certo, para abastecer de carne o Rio de Janeiro, embora no roteiro atribuído a Maldonado não conste esta intenção.
No dia 24 reencontraram o intérprete que ficara na foz do rio Açu, acompanhado de cinco índios. Juntos, caminharam até outra aldeia dos goitacá, um arraial “bem grosseiro, umas choupanas grandes em cima de uns montinhos”. Passaram o dia de natal e os subsequentes entre os índios. No dia 28, porém, voltaram a Macaé e, no dia 08 de janeiro de 1633, chegaram em suas casas em Araruama (PEIXOTO, 1984, P.30).
Os campos são demarcados
Em outubro de 1633 os capitães retornam às terras, fincando os marcos de pedra no litoral com a linha imaginária em direção ao oeste. Durante cerca de dois meses os capitães dividem seus quinhões e, no dia 08 de dezembro, em Campo Limpo, ergueram um curral e uma choupana coberta de palha para o índio Valério Corsunga, que veio com eles de São Vicente (Cabo Frio) e deixaram, ao seu cuidado, uma vaca e um touro. No dia 10 de dezembro, ergueram o segundo curral, na ponta do Cabo de São Thomé, com cinco novilhas e um touro, tendo o escravo Antônio Dias como curraleiro. A pouca distância deste erguem um terceiro curral, o de São Miguel, deixando-o sob os cuidados do índio Miguel. A seguir, retornaram ao Rio de Janeiro. (LAMEGO, p.95)
Novamente Osório Peixoto relata de maneira diversa o mesmo fato:
“no dia 20 de outubro de 1633, novamente os Sete Capitães saem em expedição para os campos. Agora, usam cavalos e trazem o escravo Antônio Dias, o índio Miguel, curraleiro do capitão Riscado e o índio Valério Corsunga, afilhado do capitão João de Castilho. Levam cabeças de gado para a criação nos campos. São dez novilhas e dois touros do capitão Riscado e três novilhas e um touro do capitão Castilho. Alcançam Macaé a 27, após abrirem picadas em matos bravios e lugares ermos. Partem desta povoação no dia 31, levando de Macaé seis mamelucos e o intérprete da primeira expedição. Seguem o mesmo itinerário e batizam os lugares por onde passam. No dia 08 de novembro de 1633, demarcam as terras entre si, a partir do litoral, dividindo a sesmaria em sete partes. Depois, tiram linhas retas até as serras”. (PEIXOTO, 1984, p.30)
Segundo o Roteiro dos Serte Capitçães. São “inúmeras lagoas que encontram e, numa delas, fazem uma jangada para atravessá-la. No meio da lagoa, “desamarrou a cabeça da jangada e caiu o Sr. Gonçalo, porém, não teve perigo algum; aqui disse o Sr. Gonçalo, que desse ao lago o apelido de Tahy, por seu irmão ai cair”. (Roteiro dos Sete Capitães)
Durante as demarcações, ainda segundo o roteiro, o capitão João de Castilho vendeu sua parte ao capitão Riscado, que trocou, também, um seu engenho por um pedaço da parte do capitão Maldonado. O capitão Riscado foi quem mais acreditou no êxito dos campos, como se depreende das negociações narradas no roteiro, embora nenhum documento que as comprove.
Já os irmãos Corrêa (Gonçalo, Duarte e Manoel) pediram que os quinhões que lhes cabiam ficassem unidos, não necessitando de demarcações entre si. Durante o trabalho de demarcação, os capitães se depararam com um negro entre os índios e mostraram o desejo de levá-lo para o Rio de Janeiro. O negro, na certa temendo perder a liberdade nos campos e de voltar a ser escravo, fugiu. “Preferiu continuar entre os índios, onde era bem tratado” (PEIXOTO,1984, p. 31).
Com as terras demarcadas e os currais prontos para o início da criação de gado, os expedicionários retornam às suas casas em fevereiro de 1634. O fato histórico que, para este trabalho, é o principal, é que começou ali, naquele final de 1633, a colonização dos campos. E o marco dessa colonização foi, sem dúvida, o primeiro curral, erguido no dia 08 de dezembro daquele ano.
O roteiro das viagens, que teria sido escrito por Maldonado, é assunto polêmico. O autor do roteiro narra com detalhes a viagem, anotando até as horas exatas de quando escrevia. No entanto, a não citação de datas importantes como a do natal, por exemplo, é motivo de desconfiança por parte de alguns pesquisadores. Se o roteiro foi ou não escrito por Maldonado, a relevância existe apenas para o estudo a cargo dos acadêmicos.
Ninguém nega a importância do documento nem a certeza de que quem fez a narrativa esteve nos campos. Ela é fiel ao que aqui existia à época. Quanto aos nomes de lugares, pode ter sido como consta no roteiro, pois eles existem com os mesmos nomes citados no documento e não surgiu outra versão que negue a que foi escrita por Maldonado ou alguém que aqui esteve na companhia dele e dos demais capitães ou na de alguns deles.
Os Sete Capitães retornam ao Rio de Janeiro. O sucesso de suas viagens e as notícias das terras dos goitacás se espalharam, porque eram as primeiras campinas a serem utilizadas para a criação de gado cavalar e vacum, “segundo as necessidades...”. Não se fala em cana-de-açúcar. Naquele período, o fim único da colonização dos campos é o abastecimento do Rio de Janeiro, uma cidade que crescia e precisava da carne para o consumo e gado para fazer funcionar as moendas dos engenhos.
Logo surgiriam interessados em arrendar terra para a criação de gado. Na terceira expedição, os capitães (que, segundo o polêmico roteiro, já não eram sete, pois alguns desistiram da empreitada, preferindo passar suas terras para outrem e, ainda, vendê-las aos demais capitães) levaram consigo Gaspar de Souza Monteiro e José Barcelos Velho.
No dia 07 de novembro de 1634 o grupo seguiu viagem com destino a Araruama, onde pernoitaram. No dia 08, tomaram o rumo de Cabo Frio. Depois, Macaé e, finalmente, no dia 14, aportam nas terras do capitão Gonçalo e do capitão Maldonado, próximo a lagoa de Carapebus. No mesmo dia 14 chegaram ao curral de São Miguel. No dia 15, os capitães mostraram as campinas e os currais, já com muitas novilhas, aos interessados em arrenda-las.
Gaspar de Souza Monteiro e José Barcelos Velho fecharam negócio, na certeza de que as terras eram excelentes para a criação de gado cavalar e vacum “para abastecer o Rio de Janeiro”. Pagaram a quantia de hum mil réis, recebidos pelo capitão Riscado. Pelo contrato, os arrendatários ficaram impedidos de fazer benfeitorias que custassem mais que 30 mil réis. Feito o acordo, os dois fazendeiros retornam ao Rio de Janeiro e só em 1637 trazem gado bovino para suas propriedades.
“Os capitães, morando em seus engenhos no Rio de Janeiro, Cabo Frio e Araruama, seguem arrendando seus quinhões. O pastoreio, a partir da posse da terra pelos capitães, estende-se pelo interior da zona de aluviões, onde a erva embaraça as pernas dos viajantes. A multiplicação do gado é assombrosa”. (LAMEGO, p. 96).
As notícias sobre os campos repercutiram no Rio de Janeiro. A planície goitacá é cobiçada por muita gente que desejava fazer fortuna com a criação de gado. Os capitães e seus herdeiros arrendaram, trocaram e venderam grandes extensões de terra. Para a planície (entenda-se a Baixada) se dirigiam, além de fazendeiros, muitos criminosos que fugiam da cidade grande, aventureiros em busca de fortuna, pequenos criadores de gado, soldados desertores, vaqueiros e oficiais de estrebaria.

A população aumentava rapidamente e os fazendeiros e comerciantes constituíram um vilarejo próximo ao local onde, depois, foi erguida a Igreja de São Francisco de Assis. A capitania prosperava rapidamente e, num espaço de 10 anos, a colonização (tentada por Pero de Góes e por Gil de Góes sem sucesso) era um fato.
Capela de São Miguel, originalmente de madeira, erguida pelos capitães


A Lagoa Feia (maior que o Mar Morto), que impressionou os capitães


 Lagoa de Carapebus, onde estiveram os capitães, que lhe deram o nome.



Foz do rio Ururaí, na Lagoa Feia.



Foz do rio Uguassu, hoje, Lagoa do Açu, onde os capitães fincaram o primeiro marco das sesmarias recebidas (entre o rio Iguassu e o rio Macaé).

Referências bibliográficas
BRANDÃO. Renato Pereira. O Roteiro dos Sete Capitães e a Capitania de São Tomé: confrontações documentais numa perspectiva interdisciplinar. Arquivo da Biblioteca Municipal Nilo Peçanha;
CARVALHO, Augusto de. Apontamentos para a História da Capitania de São Thomé. Typ. e Lith. de Silva, Carneiro e Comp. Rua do Conselho, 64 a 68, Campos/RJ, 1888;
FAZENDA, José Vieira. Revista do Instituto Histórico e |Geographico Brazileiro – Tomo LXXI, Parte I. Imprensa Oficial, 1909;
FEYDIT, Júlio. Subsídios para a História dos Campos dos Goytacazes. Edição revisada, mas sem indicação de editora e data;
GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas; LUZ, Margareth da. (organizadores). Roteiro dos Sete Capitães: documentos e ensaios. Macaé/RJ. Funemac Livros.
HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Record, Rio de Janeiro;
LAMEGO, Alberto Frederico de Moraes. A Terra Goytacá à Luz de Documentos Inéditos, Livro I. L’edition D’art. Bruxeles/Paris. 1920;
LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e o Brejo. Editora Lidador. Rio, 1974;
PEIXOTO, Osório. Os momentos decisivos da História de Campos dos Goytacazes. Serviço de Comunicação Social da Petrobrás, 1984;
REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO. Roteiro do Sete Capitães. Rio de Janeiro, 1893;
SOFFIATI, Aristides Arthur. O massacre dos índios do Norte Fluminense. Trabalho publicado no jornal Monitor Campista de 19/20 de abril de 1998.

Pesquisa e texto: Avelino Ferreira

Revisão: Gustavo Smiderle

Fotos: Marcelo Fernandes e Viviane Chagas
Imagens de Drone (rio Iguassu, rio Ururaí e Lagoa Feia): Gledson Agra
Traçado do roteiro no mapa de Couto Reys: Aristides Arthur Soffiati Neto
Campos dos Goytacazes/RJ, abril de 2016



Documentário - Os Sete Capitães


GARGAÚ

Foto antiga da Lagoa do Salgadinho, ao fundo a antiga igreja de de São Francisco de Pauta
FOTO DO LIVRO '' O HOMEM E A RESTINGA" DE ALBERTO RIBEIRO LAMEGO

Foto antiga da Lagoa do Salgadinho (Brejo salgado nos tabuleiros) de São Francisco de Pauta (Antigo sertão) São Francisco do Itabapoana-RJ

Fonte da foto: Livro "São Francisco de Itabapoana" -Mário Barreto Menezes 

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